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uniVerso

 

UNIVERSOEu quero morrer sem temer o outro lado. Eu quero morrer na leveza do orvalho. Com o peito cheio do ar que me manteve viva. Sem pudor nem maldade, sem dor nem alegria. Apenas com a fé que me fez viva.

Eu quero morrer no embalo de um acorde. Na sutileza do fim, irei lavar o passado, sem a onipresença do agora irei deixar o futuro e como a força de uma aurora atingirei o estribilho.

Eu quero morrer iluminada pelo brilho da abóbada celeste sob o olhar de um  observador. Com a certeza de uma duração sem fim, com o gozo da libertação terrestre. Na transfiguração da matéria não mais minha, mas da natureza, vou me tornar o todo. O todo não estará mais em mim, mas eu estarei no todo.

EPIDERME

 

arteabstrataÉ na pele que se sente o sopro do vento vindo de lá. É nela que se absorve o ardor de uma paixão e em seu arrepio se exalam nossas emoções. No contato dela nasce a vida. Sobre nova pele, outra alma se anima. É ela, a superfície da epiderme, que mostra o vigor da juventude. E em linhas profundas, não mais firme e rígida, realça a experiência de uma história já vivida.

ACALENTO

De uma explosão você surgiu. Suas células se multiplicam e meu corpo se transformou. Os batimentos cardíacos se intensificam e meu amor  por alguém que nem conhecia, aumentou a cada dia. Sem achar que este amor poderia ser maior, uma dor surgiu. Intensa e forte, quase me consumiu. Fui ficando ofegante e a dor aumentava a cada instante. Junto com a dor senti uma sensação de glória, de poder e de alegria quase plena. Quando a dor atingiu seu ponto máximo, uma flor desabrochou de dentro de mim. Seu rostinho lindo e indefeso procurando pelo acalento de uma mãe pronta para amá-la por toda vida.

Nanofobia

 

Pintura de Rogerio Silva - Me, myself and I

(Pintura de Rogerio Silva – Me, myself and I)

 

Teu veneno é tua cura
Tu te aturas e te torturas
Te alimentas e te esvazias,
das virtudes e das amarguras

Ama-te e te vicias
Arruina-te e te reintegras
Queres ser eterno,
Mas destrui-te a cada dia

Queres viver do passado?
ou pensar no futuro que ainda virá?
Teus conflitos, tuas angustias
teus anseios, teus tormento

e tentas coexistir-te
e conviver contigo
nessa antítese, fobia angustiante,
que é viver.

Sentimento apassivador

boneco_madeira

 

…quando você se manifesta, abstraio-me da realidade e é só me abstraindo que tenho idéia de minha existência e torno-me capaz de alterar a realidade.

…através de sua presença,  que nem  a ciência  consegue explicar, eu me prendo ao passado ou enxergo as 1000 possibilidades que o futuro pode dar.

…com você tenho ciência que viver é um mistério e um milagre que a física, a religião e a ciência tentam explicar, mas como explicar algo tão inatingível como você consciência?

A ver Maria

Licao

(Ian Malek – Lição)

 

Um oráculo me disse que forma mais bela não existe, que bondade e misericórdia maior não há. Atraído por tua graça vou seguindo meu destino sobre pedras e espinhos a ver Maria.

Aceito o denso ar que me suprime, vivo com a fé dos mutilados que acreditam-se purificados pela dor impetuosa. Um dia, quem sabe? Pra ver Maria.

Entre as imagens mais adoráveis ela é a púrpura flor. Vou correndo pelos subterrâneos redutos a ver Maria. Sou escravo de meu amor. À tua santidade rendo louvor. Ao ver pura beleza, me deleito no esplendor.

Junto de ti já não sou mais fraco. Agora, posso fechar os olhos e enfim ver Maria. 

Poema perdido

 

Paris_night

 

Perdidos numa noite suja, numa noite nua, nesta rua funda. Perdidos no vazio escuro deste tempo mudo, abstrato e injusto. Perdidos e sublimados. Sublimados por aqueles que  vêem e não enxergam. Por aueles que olham e não sentem… que passam… mas não reconhecem. Perdidos na ganância humana e quase irracional, que devora a carne e corrompe a moral. Perdidos, jogados cada um às desventuras de um caminhar que nos torna cada vez mais inodoros, insípidos e incolores.

A janela

           

Olhos Karol Amarilis

           

            No caminho, observo mil cores artificiais, inúmeras letras, os sons se confundem em meio à multidão. Carros buzinam, vendedores gritam: oito pilhas por um real! Cortar cabelo é dois, escova é três! Venham fazer um financiamento, para você sair do sufoco! É isso aí minha gente! Tudo por apenas um e noventa e nove, é só entrar e conferir! O som da cidade é triste e vazio, a agitação torna-se, nesse momento, mórbida. Hoje está sendo um dia triste, não me pergunte porque, mas, estou também cansada de tanta correria. Por que ser inimigo do tempo? Ele é mais forte, nos sucumbe, sufoca e, no fim, nós acabamos e nosso “amigo” continua a correr. Não queria correr tanto, nem ver e ouvir tudo, alguns mestres da arte desenvolveram suas abilidades  quando o instrumento desta, era ausente, assim, tiveram uma visão unilateral do todo. Mas isso é difícil quando se tem um mundo de referências. Penso em tudo que vejo. Outdoors tentando me convencer a consumir uma nova linha de celular, novos perfumes, roupas de marca, mas, tudo ao meu redor é descartável. Então, me veio agora uma grande idéia, para fugir desse mundo que me sufoca é só eu olhar para o invisível, desse modo consigo entrar no mundo transfigurado pela imaginação.

O olho é a janela da alma, assim, é preciso que vejamos o todo de uma forma diferente, como faço agora. Estou vendo uma árvore neste momento, cercada por cimento, parece até que cresceu  alí, que não é natural, em meio a carros, prédios… ela parece tão sozinha. E pensar que seus ancestrais viviam próximos e os pássaros os visitavam, dormiam em seus galhos, comiam seus frutos e, através desses, semeavam outras árvores como forma de agradecimento. Agora está tentando sobreviver para servir de cenário à modernidade, fruto da ganância humana. Biiiiiiiiii ! Que susto. Quase que aquele carro me pega, vocês viram? Acho que estou ficando maluca, vou parar com essas imaginaçõese, correr, senão me atraso para o trabalho. O que estão olhando? Acaso nunca passaram por um momento de imaginação? Experimentem. Os olhos são capazes de nos levar para lugares inimagináveis.

O Sopro

Folha

 

Bendito seja o ar que sopra
Em meu rosto e me move
No redemoinho da vida
Que corre.

Corre como a água que escorre
Entre os dedos e molha os pés.
Molha a terra,  cresce a flor
E aumenta a dor.

Bendito seja o cheiro da brisa
Da manhã que renova o dia
E enche a vida de vigor

Vigor que enfeita a desordem
Que engana a morte
E encanta o amor

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